É uma das mensagens que mais recebemos de quem vende online: "Vendi R$ 100 mil no marketplace, mas só caíram R$ 70 mil na minha conta. Por que o imposto veio em cima dos R$ 100 mil?". A dúvida faz todo sentido. Afinal, você nunca viu a cor daqueles R$ 30 mil que ficaram pelo caminho.
Neste guia, a gente explica de onde vem essa diferença, por que o imposto sobre o valor bruto ou líquido do marketplace segue essa regra, o que acontece com devoluções e cupons, e como fazer a conciliação das vendas pra não ficar mais no escuro. Tudo em linguagem simples e com um exemplo em números.
Qual a diferença entre valor bruto e valor líquido da venda?
Valor bruto é o preço que o comprador pagou pelo produto. É o valor da venda, o que vai na nota fiscal. Valor líquido (ou repasse) é o que o marketplace transfere pra você depois de descontar tudo que ele cobra: comissão, tarifa por venda, frete subsidiado, anúncios pagos com o saldo, entre outros.
| Valor bruto (venda) | Valor líquido (repasse) | Lucro | |
|---|---|---|---|
| O que é | Preço pago pelo comprador | O que o marketplace transfere | O que sobra depois de todos os custos |
| Onde aparece | Na nota fiscal e no relatório de vendas | No extrato de repasses da plataforma | Na apuração contábil da empresa |
| Pra que serve | Base do imposto no Simples e do faturamento | Controle de caixa | Saber se a operação dá dinheiro |
Arraste a tabela para o lado para ver tudo.
Os três números são importantes, mas cada um responde uma pergunta diferente. O erro mais comum é usar o valor líquido pra tudo.
O imposto é sobre o valor bruto ou líquido do marketplace?
No Simples Nacional, que é o regime da maioria dos sellers, o imposto incide sobre a receita bruta, que é o valor total da venda (Lei Complementar 123/2006, art. 3º). A comissão que o Mercado Livre, a Shopee ou a Amazon descontam não reduz essa base. Ela é um custo seu, como o frete ou a embalagem. É a mesma regra que já explicamos nos guias sobre qual imposto o vendedor de marketplace paga e sobre o Simples Nacional para e-commerce.
Pense assim: a loja de rua que vende pelo cartão também paga taxa pra maquininha, e mesmo assim a venda dela é o valor cheio. O marketplace funciona de forma parecida: ele é um prestador de serviço que cobra pela vitrine, pelo pagamento e, às vezes, pela logística.
E no Lucro Presumido ou no Lucro Real?
Fora do Simples, cada tributo tem a sua base e as suas regras, e o tratamento das tarifas do marketplace pode ter efeitos diferentes em cada um deles. A lógica de "imposto sobre a venda" continua sendo o ponto de partida, mas os detalhes precisam ser analisados pelo contador caso a caso. Se você está pensando em mudar de regime, o artigo Simples, Presumido ou Real para loja virtual ajuda na comparação.
Vendi 100 mil e recebi 70 mil: pra onde foi a diferença?
Vamos a um exemplo ilustrativo, com números redondos e fictícios. Uma loja no Simples vendeu R$ 100.000 em marketplaces ao longo do ano e recebeu R$ 70.000 de repasse. Os R$ 30.000 de diferença se dividem assim:
| Item | Valor |
|---|---|
| Vendas (valor bruto das notas) | R$ 100.000 |
| Comissões do marketplace | − R$ 14.000 |
| Tarifas fixas por venda | − R$ 3.000 |
| Frete cobrado do vendedor | − R$ 8.000 |
| Anúncios pagos com o saldo | − R$ 3.000 |
| Estornos e devoluções | − R$ 2.000 |
| Repasse recebido (valor líquido) | R$ 70.000 |
Arraste a tabela para o lado para ver tudo.
Com faturamento de R$ 100.000 nos últimos 12 meses, essa loja está na primeira faixa do Anexo I do Simples, que começa em 4% (faixa de até R$ 180.000). Calculado sobre o valor bruto, o imposto do ano seria de cerca de R$ 4.000. Quem calcula sobre o líquido chega a R$ 2.800 e fica com uma diferença de R$ 1.200 que pode aparecer depois como imposto pago a menos, com juros e multa.
Repare num detalhe: os R$ 2.000 de estornos e devoluções têm tratamento próprio. Venda cancelada e devolvida não é igual a comissão, e pode sair da receita, desde que esteja documentada do jeito certo. É o que explicamos logo abaixo.
Devolução, cancelamento e cupom mudam a base do imposto?
Aqui mora boa parte da confusão, e vale separar caso a caso:
- Venda cancelada ou devolvida: sai da receita, desde que esteja documentada (cancelamento da nota ou nota de devolução). A LC 123/2006 (art. 3º, § 1º) exclui da receita bruta as vendas canceladas, e a devolução é deduzida no PGDAS-D do mês em que acontece (Resolução CGSN nº 140/2018).
- Desconto dado por você na própria nota: o desconto incondicional, aquele que já sai destacado na nota e não depende de nenhuma condição depois, fica fora da receita bruta (LC 123/2006, art. 3º, § 1º). Por isso ele tem tratamento diferente do desconto pago pelo marketplace.
- Cupom bancado pelo marketplace: quando a plataforma paga o desconto, o valor da venda pode ser diferente do que o comprador pagou, e isso precisa ser analisado. O Mercado Livre, por exemplo, pede na central do vendedor que cupons e descontos apareçam no campo de desconto do XML da nota. Como cada cupom entra na base do imposto depende de quem banca o desconto, e a gente confere isso no seu caso.
- Frete: depende de quem contrata e de como o frete aparece na nota e no relatório da plataforma. O frete que o marketplace desconta do seu repasse é custo seu, como a comissão, e no Simples não reduz a base do imposto.
O ponto comum é: nada disso se resolve olhando só o extrato de repasse. É preciso cruzar pedido, nota e repasse. Pra entender o lado operacional das devoluções, veja o guia de devolução e troca no e-commerce.
Quais relatórios de cada marketplace você precisa acompanhar?
Todo marketplace oferece, no painel do vendedor, pelo menos dois tipos de informação: o relatório de vendas (pedidos, valor de cada venda, status) e o extrato de repasses ou de pagamentos (o que foi liberado, quando e com quais descontos). Os nomes e o formato mudam de plataforma pra plataforma e são atualizados com frequência, então confira o caminho atual na central de ajuda de cada plataforma.
- Mercado Livre: vendas no painel do vendedor e repasses na conta de pagamentos vinculada. Veja a rotina completa em contabilidade para quem vende no Mercado Livre. Ainda vende no CPF? Veja se você precisa de CNPJ pra vender no Mercado Livre.
- Shopee: pedidos e a área de pagamentos e saldo do vendedor. Mais em contabilidade para quem vende na Shopee.
- Amazon: relatórios de pedidos e de pagamentos por período de liquidação.
- Magalu e Shein: relatórios de pedidos e de repasses no portal do parceiro.
Baixe os dois relatórios todo mês, no mesmo período, e guarde junto com as notas emitidas. Eles são a matéria-prima da conciliação.
Como fazer a conciliação das vendas do marketplace?
Conciliar é conferir se três coisas batem: o que foi vendido, o que foi faturado em nota e o que foi recebido. Parece trabalhoso, e é, mas é o que evita imposto errado e dinheiro perdido.
- Pedido x nota: todo pedido entregue tem nota emitida com o valor certo? Tem nota de pedido cancelado que não foi cancelada?
- Nota x repasse: o repasse de cada pedido corresponde ao valor da nota menos as tarifas esperadas?
- Tarifas x contrato: as comissões e tarifas descontadas batem com as regras da sua categoria e do seu tipo de anúncio?
- Devoluções: cada devolução tem o documento fiscal correspondente e saiu da receita?
- Pendências: o que foi vendido e ainda não foi repassado está anotado como valor a receber?
- Relatório de vendas do mês baixado de cada marketplace.
- Extrato de repasses do mesmo período.
- Arquivos XML das notas emitidas e canceladas.
- Lista de devoluções com o documento de cada uma.
- Planilha ou sistema que cruze pedido, nota e repasse.
- Diferenças anotadas e explicadas antes de fechar o mês.
Como a contabilidade trata as vendas do marketplace?
Uma contabilidade que entende de marketplace registra a venda pelo valor bruto, lança as comissões, tarifas e fretes como despesas separadas e trata as devoluções com o documento certo. O resultado são três números limpos: faturamento (base do imposto), custos da plataforma (que mostram a margem) e repasse (que mostra o caixa).
Na You, a apuração parte dos relatórios de cada plataforma, e não só do extrato bancário. É o trabalho da contabilidade para e-commerce. Quando a dúvida é se as tarifas estão comendo a margem, a análise de marketplace mostra, anúncio por anúncio, onde o dinheiro está ficando. E se você acha que já pagou imposto a mais por erro de base, veja os sinais de que sua empresa paga imposto demais.
Como usar o valor líquido a seu favor?
O valor líquido não serve de base pro imposto do Simples, mas é ótimo pra gestão. Com ele você:
- descobre quanto cada marketplace realmente deixa na sua mão, em percentual da venda;
- compara canais (às vezes o que vende mais é o que deixa menos);
- monta o preço de venda de trás pra frente, a partir da margem que você quer;
- planeja o caixa, porque é o repasse que paga as contas (e ele tende a mudar com o split payment da reforma tributária).
Pra transformar isso em preço, veja o guia de como precificar produto no marketplace. Pra transformar em planejamento de caixa, veja o de fluxo de caixa no e-commerce.
Resumo: imposto sobre o valor bruto ou líquido do marketplace?
No Simples Nacional, sobre o valor bruto, ou seja, o valor total da venda. Comissão, tarifa e frete descontados pelo marketplace são custos, não reduzem a base. Vendas canceladas, devoluções, descontos e cupons têm tratamento próprio e precisam de documentação. Se você vendeu R$ 100 mil e recebeu R$ 70 mil, o faturamento do marketplace é R$ 100 mil, e o imposto segue esse número. A conciliação mensal entre pedido, nota e repasse é o que mostra se a conta está certa.
Perguntas frequentes sobre valor bruto e líquido
No Simples Nacional, sobre o valor bruto, que é o valor total da venda. A comissão, a tarifa e o frete descontados pelo marketplace são custos do vendedor e não reduzem a base do imposto.
No Simples, não. A comissão é despesa da loja. Ela precisa ser controlada pra você saber a margem real, mas o imposto continua calculado sobre o valor da venda.
O faturamento é o valor das vendas, ou seja, R$ 100 mil. Os R$ 70 mil são o repasse, que serve pra controlar o caixa. A diferença é formada por comissões, tarifas, frete, anúncios e devoluções.
Não, desde que esteja documentada. No Simples, a lei tira as vendas canceladas da receita bruta, e a devolução com nota é deduzida no mês em que acontece. Por isso cada devolução precisa do documento certo e deve ser conferida na conciliação.
É conferir, todo mês, se o que foi vendido, o que foi faturado em nota e o que foi repassado pelo marketplace batem entre si. Ela mostra notas faltando, tarifas cobradas a mais e devoluções que não saíram da receita.
Fontes oficiais (consulta em 23/09/2026)
- Conceito de receita bruta (art. 3º) e Anexo I do Simples Nacional: Lei Complementar nº 123/2006 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp123.htm
- Apuração e regras do Simples Nacional: Portal do Simples Nacional https://www8.receita.fazenda.gov.br/SimplesNacional/
- Nota fiscal eletrônica, cancelamento e devolução: Portal Nacional da NF-e https://www.nfe.fazenda.gov.br/
- Tributos federais no Lucro Presumido e no Lucro Real: Receita Federal https://www.gov.br/receitafederal